terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Retrato

"O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado:
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua."

Miguel Torga

Outra Vez

"Outra vez este desapego de tudo.
Outra vez
este olhar indiferente para tudo:
não encontrar na vida uma razão de viver.

Triste
encosto-me na janela
e olho a natureza livre.

Talvez valesse a pena ser árvore...

Talvez valesse a pena ser cão.

Tudo
menos andar amarrado uma vida inteira
aos preconceitos inúteis
duma civilização caduca."

João José Cochofel

Sonho Perdido

"Como foi que o meu sonho se perdeu
No liso descampado desta vida?
Distraída
Atenção
Que tão ingloriamente empobreceu
Quem não tinha outro vinho e outro pão!

Na fundura dos bolsos não encontro
Nem sequer a lembrança desenhada
Do seu calor!
Perdi o sonho… E resta-me o pudor
Deste triste poema ressequido…
Perdi o sonho… E nunca se encontrou
Nenhum sonho perdido."

Miguel Torga

sábado, 16 de janeiro de 2016

Terra de Ninguém

"Todos têm para mim o desprezo dos fortes,
todos têm para mim
o desprezo
dos que encontram na vida um caminho
- que muitas vezes não encontraram
mas julgaram encontrar.

Caminho
que pode ser o seu
mas é um caminho...

Eu
continuarei a perder-me nos horizontes largos,
a andar às cegas entre o mal e o bem...

que a minha terra
é Terra de Ningém."


João José Cochofel

"Poesias Excluídas, II, Instantes"

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Folhinha

"Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano,
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.

É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida."

Miguel Torga

A Callar!

"Aprendi a calar,
a sorrir
quando era absolutamente necessário,
a correr, a não sentir,
a amar sem que se note,
a comer sem prazer,
a esquecer logo,
a viver só,
a pensar nos demais
para não pensar em si mesmo
e a rezar para não despertar,
porque, às vezes,
(ainda apesar de tudo)
surge um desejo de viver
e o monstro segue firme
ao nosso lado
mesmo se resta apenas o remédio de esquecer
e recorrer à oração,
ao maratonismo e ao silêncio
para continuar fugindo e temendo,
para não pensar
que outro dia
as coisas podem ser de outra maneira."


Jorge Canese
"Trino soterrado"

Ré Menor

(...)

"O silêncio sublima-se no próprio silêncio, magnificência.
Isto, também é deus. Não é instantâneo. Faz-se, cresce, in-
vade, circula, circunda. Absorve.

Blindar os dias com música. Cada um, um por um."

(...)

Patrícia Baltazar
"ré menor"

Melodia

     V

"Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.

Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas...

Os pássaros quando morrem
caem no céu."

José Gomes Ferreira
"Poesia"

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Poeta

"Lembras-te, Mãe

do menino que perdeste
e que ficou...
do menino que ficou
mas que fugiu...?

Anda agora pela vida...

É o poeta dos olhos molhados
do sorriso triste
dos dedos longos...

Anda agora pela vida...

E um dia, Mãe
ele há-de voltar
novamente,
para lhe aqueceres as mãos frias
e chorar com ele as ilusões perdidas.

Entretanto
deixa-o sofrer mais algum tempo..."

João José Cochofel

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Aos Amigos

"Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão."

Herberto Helder
"Ofício Cantante"

Poesia

    ***

"Houve um tempo em que as minhas únicas paixões
eram a pobreza e a chuva.

Agora sinto a pureza dos limites e a minha paixão
não existiria se eu soubesse o seu nome."

Antonio Gamoneda

sábado, 9 de janeiro de 2016

Guerra Civil

"É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido,
Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino."

Miguel Torga

Há sempre um erro novo à nossa espera

"Há sempre um erro novo à nossa espera.

Seja ele um cubo ou uma esfera,
há que recebê-lo com alegria.

É um erro novo.

Está à nossa espera."

Jaime Salazar Sampaio

Não Desafies a Alegria

   XVII

"Não desafies
a alegria.

Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?

Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria."

João José Cochofel

Poema

"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é o seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura"

Mário Cesariny
"Pena Capital"

Oração Fria

"Há uma erva cujo nome se desconhece; assim foi a
minha vida.

Regresso a casa atravessando o inverno: esquecimento
e luz sobre as roupas húmidas. Os espelhos estão
vazios e nos pratos cega a solidão.

Ah a pureza das facas abandonadas."

António Gamoneda

Areia

       XIV

...
"Acuso-te, realidade,
desta noite longa
a estender-se de estrelas
até o frio do espanto.
...
Acuso-te de seres um sonho alheio
que não cabe no meu canto."

José Gomes Ferreira

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A Carne e o Sonho

"O tempo é mau ladrão: somente rouba ao homem
seus territórios de infeliz mendigo.
Mas se aquelas desditas pudesse recuperá-las,
não voltaria a ser a sombra que foi antes,
mas esse rei lendário que ainda tem que nascer.

O sonho é a matéria de que está feito o deus,
e, como a água ao fogo, aniquila-o a carne."

Francisco Brines
trad José Bento

domingo, 3 de janeiro de 2016

Areia

               XXIII

...
Paisagem de muros e de cães
a ladrarem pelo céu
- propriedade azul
de todos os desgraçados.
...
Árvores escondidas
que o vento desenha em perfumes
no silêncio do sol.
...
Sebes de silvas e piteiras
ainda com o ódio primitivo
de quando o mundo
era um planeta de florestas e de pássaros,
e o homem um intruso,
um ser ilógico
sem raízes nem asas.
...
Hoje esse homem sou eu,
sem terra para pisar,
sem sombras para dormir,
sem frutos para comer,
sem flores para cheirar,
sem fontes para beber
- perseguido por todos os muros do mundo
numa paisagem de lagartixas.
...
Hoje esse homem sou eu.
...
O céu, ao menos, não tem muros.
E as aves não riscam fronteiras
nem põem vidros partidos nas nuvens.
...

José Gomes Ferreira