quarta-feira, 4 de março de 2015

Everness

"Só uma coisa há. É o esquecimento.
Deus, que salva o metal, salva a escoria
E cifra na sua profética memória
as luas que serão e que hão sido.

Já tudo está. Os mil reflexos,
Que entre os dois crepúsculos do dia
Teu rosto foi deixando nos espelhos
e os que irá deixando ainda.

E tudo é uma parte do diverso
Cristal dessa memória, o universo;
Não têm fim seus árduos corredores

E as portas se fecham a teu passo,
Só do outro lado do ocaso
Verás os Arquétipos e Esplendores."

Jorge Luis Borges

terça-feira, 3 de março de 2015

Grito Claro

"De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro"

António Ramos Rosa

Dorothea Lange Zollie Lyon North Carolina 1939


Com Palavras

"Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar..."

Égito Gonçalves

segunda-feira, 2 de março de 2015

Liberdade

"Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome

Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome

Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objectos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade"

Paul Éluard

Bill Brandt London -1955


To Helena

"Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente 
A maneira mais triste de se estar contente 
a de estar mais sozinho em meio de mais gente 
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente 
Emotiva atitude de quem age friamente 
inalterável forma de se ser sempre diferente 
maneira mais complexa de viver mais simplesmente 
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente 
de estar num sítio tanto mais se mais ausente 
e mais ausente estar se mais presente 
de mais perto se estar se mais distante 
de sentir mais o frio em tempo quente 
O modo mais saudável de se estar doente 
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente 
de mentir muito verdadeiramente 
de dizer a verdade falsamente 
de se mostrar profundo superficialmente 
de ser-se o mais real sendo aparente 
de menos agredir mais agressivamente 
de ser-se singular se mais corrente 
e mais contraditório quanto mais coerente 
A via enviesada para ir-se em frente 
a treda actuação de quem actua lealmente 
e é tão impassível como comovente 
O modo mais precário de ser mais permanente 
de tentar tanto mais quanto menos se tente 
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente 
de estar mais no passado se mais no presente 
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente 
de ser tão insensível como quem mais sente 
de melhor se curvar se altivamente 
de perder a cabeça mas serenamente 
de tudo perdoar e todos justiçar dente 
por dente de tanto desistir e de ser tão constante 
de articular melhor sendo menos fluente 
e fazer maior mal quando se está mais inocente 
É sob aspecto frágil revelar-se resistente 
é para interessar-se ser indiferente 
Quando helena recusa é que consente 
se tão pouco perdoa é por ser indulgente 
baixa os olhos se quer ser insolente 
Ninguém é tão inconscientemente consciente 
tão inconsequentemente consequente 
Se em tantos dons abunda é por ser indigente 
e só convence assim por não ser muito convincente 
e melhor fundamenta o mais insubsistente 
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente 
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente" 

Ruy Belo