quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dizem os Sábios

"Dizem os sábios que já nada ignoram
Que alma, é um mito!...
Eles que há muito, em vão, dos céus exploram
O almo infinito...
Eles, que nunca achavam no ente humano
Mais que esta face
De ser finito, orgânico, o gusano
Que morre e nasce,
Fundam-se na razão.
E a razão erra!...

Quem da lagarta a rastejar na terra
Pode supor,
Sonhar sequer, que um dia há-de nascer
A borboleta, aquela alada flor
Matiz dos céus?
Sábios, achai em vão o pode ser
Saber... só Deus.

O homem rasteja, semelhante ao verme
Por que não há-de a paz da sepultura
- Quanto labor sob a aparente calma!
Servir d'abrigo àquele ser inerme,
De que há-de um dia após tarefa oscura
Surgir vivaz, alada e flor, a Alma."

Ângelo de Lima

Impressão Digital

"Os meus olhos soo uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros^ com outros olhos,
não veem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns veem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns veem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes."

António Gedeão

Robert Capa, Paris -1944


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Não chores

"Não chores, pois ainda tens
o vento e a distância.

O amor é o vento. Sem solução,
o abismo surge no teu olhar.

É certo que me turvas a garganta
com o teu pranto e a tua mão distante.

Não chores ainda: do ar bebes
o aroma da tristeza nas minha mãos."

Antonio Gamoneda

Extrai do todos-os-dias

"Extrai do todos-os-dias
O hoje de todo-o-sempre
Até ao fim do mundo
Quando o sol gelar
A última eternidade.
Embala amanhã nos braços dos outros
A criança esquecida
Que foi agora atropelada
Por mil automóveis
Em todas as ruas do mundo.

Procura nas lágrimas recentes
Os olhos de hão-de chorá-las
Daqui a dez mil anos.

E se queres a glória
De ser ignorado
Pelo egoísmo do futuro
Ouve, poeta do desdém novo:
Canta os mortos das barricadas
E a volúpia das dores do tempo.

(Mas pede às rosas
que continuem a repetir-se
até o fim das pedras…"

José Gomes Ferreira

Epitáfio

"Um pássaro vivia em mim.
Uma flor viajava em meu sangue.
Meu coração era um violino.

Quis ou não quis. Mas às vezes
me quiseram. Também me
alegravam: a primavera,
as mãos juntas, o feliz.

Digo que o homem deve sê-lo!

Aqui jaz um pássaro.
Uma flor.
Um violino."

Juan Gelman

Arthur Leipzig