sábado, 4 de abril de 2015

Já não me dá amargos de boca

"Já não me dá amargos de boca
o mundo.
Sei o que quero desta vida oca:
não me confundo.

Mágoas que chorei,
mesmo sentidas:
falta de sol,
álcool sobre as minhas feridas.

Excesso de lembrança,
dor que outra dor levanta.
Xadrez de quem vive sozinho
e não canta"

João José Cochofel

Philippe Halsman -1950


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Vesperal

"E, contudo, é bonito
O entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
Sobre o tecto macio
Da ramagem
E fica derramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
Parece adormecida
Nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
Sem destino.
E o rumor citadino
Ondula nos ouvidos
Distraídos
Dos que vão pelas ruas caminhando
Devagar
E como que sonhando,
Sem sonhar…"

Miguel Torga

Cântico

"Ah! São as árvores erguidas

E os caminhos desertos,

Desertos e abertos,

Promessas de vida…,

Ah! São os lamentos de cores

E os ambientes tristes,

Lembranças de dores…;

Ah! É tudo isto,

Tudo, tudo,

Que me envolve, me inunda,

Me estende seu manto

De pureza e de encanto…

– Pureza que eu canto,

Encanto de tudo!…"

David Mourão-Ferreira

O Poema

"Um poema
cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplendida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silencio
a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das cisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério

- E o poema faz-se contra a carne e o tempo."



Herberto Helder

Werner Bischof


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Uma Vida Pequena

"Uma vida pequena
para que é que serviu?
Rasto de poeira
em tarde de estio.

Que sonhos, que pragas,
que fogos em vão
calcados de terra
reacenderão?

Chora a infância, chora.
Não a que tiveste.
Mas a que na troca
do tempo apetece."

João José Cochofel