"Já não me dá amargos de boca
o mundo.
Sei o que quero desta vida oca:
não me confundo.
Mágoas que chorei,
mesmo sentidas:
falta de sol,
álcool sobre as minhas feridas.
Excesso de lembrança,
dor que outra dor levanta.
Xadrez de quem vive sozinho
e não canta"
João José Cochofel
sábado, 4 de abril de 2015
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Vesperal
"E, contudo, é bonito
O entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
Sobre o tecto macio
Da ramagem
E fica derramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
Parece adormecida
Nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
Sem destino.
E o rumor citadino
Ondula nos ouvidos
Distraídos
Dos que vão pelas ruas caminhando
Devagar
E como que sonhando,
Sem sonhar…"
O entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
Sobre o tecto macio
Da ramagem
E fica derramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
Parece adormecida
Nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
Sem destino.
E o rumor citadino
Ondula nos ouvidos
Distraídos
Dos que vão pelas ruas caminhando
Devagar
E como que sonhando,
Sem sonhar…"
Miguel Torga
Cântico
"Ah! São as árvores erguidas
E os caminhos desertos,
Desertos e abertos,
Promessas de vida…,
Ah! São os lamentos de cores
E os ambientes tristes,
Lembranças de dores…;
Ah! É tudo isto,
Tudo, tudo,
Que me envolve, me inunda,
Me estende seu manto
De pureza e de encanto…
– Pureza que eu canto,
Encanto de tudo!…"
David Mourão-Ferreira
E os caminhos desertos,
Desertos e abertos,
Promessas de vida…,
Ah! São os lamentos de cores
E os ambientes tristes,
Lembranças de dores…;
Ah! É tudo isto,
Tudo, tudo,
Que me envolve, me inunda,
Me estende seu manto
De pureza e de encanto…
– Pureza que eu canto,
Encanto de tudo!…"
O Poema
"Um poema
cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplendida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silencio
a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das cisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério
- E o poema faz-se contra a carne e o tempo."
Herberto Helder
cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplendida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silencio
a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das cisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério
- E o poema faz-se contra a carne e o tempo."
Herberto Helder
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Uma Vida Pequena
"Uma vida pequena
para que é que serviu?
Rasto de poeira
em tarde de estio.
Que sonhos, que pragas,
que fogos em vão
calcados de terra
reacenderão?
Chora a infância, chora.
Não a que tiveste.
Mas a que na troca
do tempo apetece."
João José Cochofel
para que é que serviu?
Rasto de poeira
em tarde de estio.
Que sonhos, que pragas,
que fogos em vão
calcados de terra
reacenderão?
Chora a infância, chora.
Não a que tiveste.
Mas a que na troca
do tempo apetece."
João José Cochofel
Assinar:
Postagens (Atom)

