"Irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no
futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e
das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é
insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como
era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda - trepai por ela acima até à
vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que há-de medrar melhor na memória do mundo"
Herberto Helder
"Servidões"
terça-feira, 17 de novembro de 2015
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Visita
"Fui ver o mar.
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.
Da penedia triste
Pus-me o olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.
E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr."
Miguel Torga
"Poesia Completa"
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.
Da penedia triste
Pus-me o olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.
E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr."
Miguel Torga
"Poesia Completa"
domingo, 15 de novembro de 2015
Chove...
"Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama."
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama."
José Gomes Ferreira
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Arte do Tempo
"O tempo permanece
Apanhado entre os livros.
Por este prodígios de apreensão,
Heraclito continua a banhar-se
No mesmo rio,
Na mesma página.
Tu continuarás para sempre
Nua no meu poema."
Juan Manuel Roca
"Os Cinco Enterros de Pessoa"
Apanhado entre os livros.
Por este prodígios de apreensão,
Heraclito continua a banhar-se
No mesmo rio,
Na mesma página.
Tu continuarás para sempre
Nua no meu poema."
Juan Manuel Roca
"Os Cinco Enterros de Pessoa"
(trad. Nuno Júdice)
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Despedida
"Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia."
Eugénio de Andrade
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia."
Eugénio de Andrade
"Ostinato Rigore"
domingo, 8 de novembro de 2015
Imagem
"Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.
Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.
São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior."
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.
Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.
São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior."
Miguel Torga
Bairro Novo
"Na doçura do cair da tarde
vou passando
através das ruas do bairro novo.
Este bairro
é quase desconhecido para mim.
Chego a ter a ilusão
de que habito uma cidade diferente.
O sol bate nas vidraças.
Tudo respira uma alegria suave.
Nas janelas
há meninas debruçadas.
Estão na «idade perigosa»
e sonham.
É tão perigoso sonhar…
Fumo e distraio-me,
uma grande doçura a invadir-me.
Era tão bela a vida
se todos quisessem…"
João José Cochofel
vou passando
através das ruas do bairro novo.
Este bairro
é quase desconhecido para mim.
Chego a ter a ilusão
de que habito uma cidade diferente.
O sol bate nas vidraças.
Tudo respira uma alegria suave.
Nas janelas
há meninas debruçadas.
Estão na «idade perigosa»
e sonham.
É tão perigoso sonhar…
Fumo e distraio-me,
uma grande doçura a invadir-me.
Era tão bela a vida
se todos quisessem…"
João José Cochofel
”Instantes”
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