sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Callar!

"Aprendi a calar,
a sorrir
quando era absolutamente necessário,
a correr, a não sentir,
a amar sem que se note,
a comer sem prazer,
a esquecer logo,
a viver só,
a pensar nos demais
para não pensar em si mesmo
e a rezar para não despertar,
porque, às vezes,
(ainda apesar de tudo)
surge um desejo de viver
e o monstro segue firme
ao nosso lado
mesmo se resta apenas o remédio de esquecer
e recorrer à oração,
ao maratonismo e ao silêncio
para continuar fugindo e temendo,
para não pensar
que outro dia
as coisas podem ser de outra maneira."


Jorge Canese
"Trino soterrado"

Ré Menor

(...)

"O silêncio sublima-se no próprio silêncio, magnificência.
Isto, também é deus. Não é instantâneo. Faz-se, cresce, in-
vade, circula, circunda. Absorve.

Blindar os dias com música. Cada um, um por um."

(...)

Patrícia Baltazar
"ré menor"

Melodia

     V

"Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.

Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas...

Os pássaros quando morrem
caem no céu."

José Gomes Ferreira
"Poesia"

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Poeta

"Lembras-te, Mãe

do menino que perdeste
e que ficou...
do menino que ficou
mas que fugiu...?

Anda agora pela vida...

É o poeta dos olhos molhados
do sorriso triste
dos dedos longos...

Anda agora pela vida...

E um dia, Mãe
ele há-de voltar
novamente,
para lhe aqueceres as mãos frias
e chorar com ele as ilusões perdidas.

Entretanto
deixa-o sofrer mais algum tempo..."

João José Cochofel

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Aos Amigos

"Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão."

Herberto Helder
"Ofício Cantante"

Poesia

    ***

"Houve um tempo em que as minhas únicas paixões
eram a pobreza e a chuva.

Agora sinto a pureza dos limites e a minha paixão
não existiria se eu soubesse o seu nome."

Antonio Gamoneda

sábado, 9 de janeiro de 2016

Guerra Civil

"É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido,
Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino."

Miguel Torga