segunda-feira, 30 de julho de 2018

Aún e Pavana Impura

*


Teve um tempo em que minhas únicas paixões eram a pobreza e a chuva.


Agora sinto a pureza dos limites e minha paixão não existiria se dissesse seu nome.


*


Lembro do frio do amanhecer, os círculos dos insetos sobre os copos imóveis, a possibilidade de um abismo cheio de luz sob as janelas abertas para a ventilação da enfermidade, o odor triste da soda cáustica.


*


Alguém entrou na memória branca, na imobilidade do coração.


Vejo uma luz debaixo da neblina e a doçura do erro me faz cerrar os olhos.


É a ebriedade da melancolia; como aproximar o rosto de uma rosa enferma, indecisa entre o perfume e a morte.


*
Não tenho medo nem esperança. Em um hotel fora do destino, vejo uma praia negra e, distante, as grandes pálpebras de uma cidade cuja dor não me concerne.


Venho do metileno e do amor; tive frio sob os tubos da morte.


Agora contemplo o mar. Não tenho medo nem esperança.


*


Eras sábio e covarde, estás ferido entre as mulheres úmidas, teu pensamento é apenas lembrança da ira.


Vejo as rosas temíveis.


Ah caminhante, ah confusão de pálpebras.


*


Pousa teus lábios nas cânulas como faz o deus que chora em teus armários, o que fala entre unhas amarelas; silvo do sofrimento nas cânulas e, na pureza das horas vazias, lembras da zaragatoa de teu pai, a solidão das pombas extraviadas na eternidade.


*


Lençol negro na misericórdia:
tua língua em um idioma ensanguentado.


Lençol ainda na substância inferma,
a que chora em tua boca e na minha
e, atravessando docemente feridas,
ata meus ossos a teus ossos humanos.


Não morras mais em mim, sal de minha língua.


Dá-me a mão para entrar na neve.


*


Ame todas as perdas.


Ainda retumba o rouxinol no jardim invisível.


*




Todas as árvores puseram-se a gemer dentro de meu espírito ao lembrar de tuas calcinhas na penumbra, a luz debaixo de tua pele, tuas pétalas viventes.


Atravessando aniversários, às vezes viajam as pombas ébrias.


Venha desnuda tua misericórdia, ah pomba mortal, filha do campo


*


Nossos corpos se penetram com cada vez mais tristeza, mas eu amo essa púrpura desolada.


Ah a flor negra dos dormitórios, ah os comprimidos do amanhecer.


*


Veio tua língua; está em minha boca
como uma fruta na melancolia.


Tem piedade em minha boca: suga, lambe,
meu amor, a sombra.


*


Na umidade me amas


e eras azul em teus mamilos. Falas


suavemente em meus lábios e regressas


à tua prisão na melancolia.


*


Teus cabelos embranquecem entre minhas mãos e, como águas silenciosas, nos abandonam as lembranças. Sinto a frieza da existência mas teu odor se espalha pelos quartos e tua lascívia vive em meu coração e entra meu pensamento em tuas feridas.

*

Antonio Gamoneda
(Lengua y herida(

. Préface en prose

"Falo a vocês, homens das antípodas,
falo de homem a homem,
com o pouco que em mim permanece do homem,
com o pouco de voz que me resta na garganta,
meu sangue está nas estradas, possa, possa ele
não gritar vingança!
A caça é certa, as bestas estão cercadas,
deixe-me falar com essas mesmas palavras
que tínhamos em comum -
pouco restam inteligíveis!

Virá um dia, é certo, da sede saciada,
estaremos além da lembrança, a morte
terá terminado o trabalho do ódio,
serei um buquê de urtigas aos seus pés,
- então, bem, saibam que eu tinha um rosto
como vocês. Uma boca que suplicava, como vocês.

Quando poeira, ou mesmo um sonho, entrava
no olho, esse olho chorava um pouco de sal.
E quando um mau espinho arranhava minha pele,
daí saía um sangue tão vermelho como o seu!
É certo, como vocês era cruel, tinha
sede de ternura, de poder,
de ouro, de prazer e de dor.
Como vocês eu era ruim e angustiado
sólido na paz, ébrio na vitória,
e titubeante, desvairado à hora da derrota!

Sim, eu era um homem como os outros homens,
nutrido de pão, de sonho, de desespero. E sim,
amei, chorei, odiei, sofri,
comprei flores e nem sempre
paguei meu aluguel. Domingo ia ao campo
pescar, sob o olhar de Deus, peixes irreais,
me banhava no rio
que cantava nos juncos e comia fritas
de noite. Depois, depois, ia me deitar
fadigado, o coração exausto e cheio de solidão,
pleno de piedade de mim, pleno de piedade do homem,
procurando, procurando em vão sobre um ventre de mulher
essa paz impossível que nós tínhamos perdido
outrora, num grande pomar onde florescia,
no centro, a árvore da vida...

Li como todos vocês os jornais, todos os livros,
e nada compreendi no mundo
e nada compreendi no homem,
ainda que com frequência chegava a afirmar
o contrário. E quando a morte, a morte veio, talvez
pretendi saber o que era ela mas, verdade,
posso lhes dizer nesta hora, ela entrou toda em meus olhos atônitos,
atônitos por tão pouco compreender
- vocês compreenderam melhor do que eu?

E todavia não!
eu não era um homem como vocês.
Vocês não nasceram nas ruas,
ninguém jogou no esgoto seus pequenos
como gatos ainda sem visão,
vocês não erraram de cidade em cidade
perseguidos pelos polícias,
vocês não conheceram os desastres da aurora,
os vagões de bestas
e o soluço amargo da humilhação,
acusados de um delito que vocês não cometeram,
de uma morte ainda sem cadáver,
mudando de nome e de rosto,
para não carregar um nome vaiado
um rosto que tinha servido a todo mundo
de escarrador!

Um dia virá, sem dúvida, quando o poema lido
se encontrará diante dos seus olhos. Ele não pede
nada! Esqueçam-no, esqueçam-no! É
só um grito, que não se pode colocar em um poema
perfeito, tenho então tempo de terminá-lo?
Mas quando vocês esmagarem esse buquê de urtigas
que tinha sido eu, em um outro século,
em uma história a vocês expirada,
lembrem-se apenas que eu era inocente
e que, assim como vocês, mortais naquele dia,
tivera, eu também, um rosto marcado
pela cólera, pela piedade e alegria,

um rosto de homem, simplesmente."

Benjamin Fondane
(L'Exode)

Gritam...

[ Gritam ... ]


Gritam diante dos muros calcinados.


Vêem o perfil das navalhas, vêem
o círculo do sol, a cirurgia
do animal repleto de sombra.


                              Sibilam
nas fístulas brancas.


[ Acreditei... ]



Acreditei em tanta coisa. Durante muito tempo
nevou sem esperança.


Havia mães que enlouqueciam ao amanhecer: ouço
os seus gritos amarelos.


Ainda neva. Creio na desaparição.
Creio na ira.


[ vêm ... ]


Vêm até aos signos
as sombras torturadas.


Penso no dia em que os cavalos aprenderão a chorar.


[ Olho.. ]


Olho para a minha nudez. Contemplo
a aparição das feridas brancas.


Envolto em mortalhas,
bebo a doçura e a sombra
das águas femininas.


IV


Corpos à beira
das acéquias frias


amortalhados
na luz


[ Encontrei... ]


Encontrei mercúrio nas pupilas,
lágrimas nas madeiras, luz
na parede dos moribundos


[ O meu rosto... ]


O meu rosto ferve nas mãos do escultor cego.


Na pureza dos pátios imóveis ele pensa docemente
nos suicidas; está criando a velhice:


ontem e hoje já são o mesmo dia no meu coração.


[ Como se... ]

Como se pousasses no meu coração e houvesse luz dentro das
minha veias e enlouquecesse suavemente; tudo é verdadeiro na
tua claridade:


pousaste no meu coração,


há luz dentro das minha veias,


enlouqueci suavemente.


[ Sobre o tanque... ]


Sobre o tanque
as pombas giram em torno da tua cabeça.


Quando as suas asas roçam os teus cabelos, inclino-me
e vejo a tua claridade na água


e eu estou na tua claridade e não me reconheço:


estou coroado de pombas


dentro da água. Em ti.


[ Dormes ... ]


Dormes sob a pele da tua mãe e os seus sonhos penetram os
teus sonhos.Vais acordar na mesma confusão luminosa.


Ainda não sabes quem és; estás indecisa entre a tua mãe e
um terramoto vivente.


[ alguém entrou... ]


Alguém entrou na memória branca, na imobilidade
do coração.


Vejo uma luz debaixo do nevoeiro e a doçura do engano
faz-me fechar os olhos.


É a ebriedade da melancolia: como se inclinasse o rosto
sobre uma rosa enferma, indecisa entre o perfume e a morte.


[ os mananciais ... ]


Os mananciais falam na noite, falam nos ímanes do
silêncio.


Sinto a suavidade das palavras esquecidas.


[ O teu cabelo... ]


O teu cabelo nas suas mãos; arde nas mãos do vigilante
da neve.


São as cevadas, a sesta das serpentes e o teu cabelo de
outrora.


Abre os teus olhos para que eu veja as cevadas brancas:
a tua cabeça nas mãos do vigilante da neve.



Deus e a sua máscara. Ouves os insectos que se alimentam
na tua alma


e , de repente, uma árvore clama, e a língua do
esquecimento arde


e tudo acaba em transparência, em formas cuja verdade
é inconcebível


até que as espumas queimam o coração de homens
desconhecidos e os cavalos falam de todo aquele sangue,
daquele ar extinto nos pátios de Espanha,


daquela terra sem descanso,


daquele esquecimento cheio de sangue.


António Gamoneda

(Denúncia do verão)

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Se Eu Agora Inventasse o Mundo

"Se eu agora inventasse o mundo
criaria a luz da manhã já explicada
sem o luto que pesa
na sombra dos homens
- conspiração da noite
com as pedras.

Luz que o cheiro das ervas da madrugada
aproxima os mortos do silêncio
com esqueletos de asas
- conluio com o sol
para estarem mais presentes
no tacto da pele da manhã,
mil mãos a afogarem a paisagem,
bafo de flores donde cai
o enlace das sementes...

Abro a janela
O mundo cheira tão bem a trevos ausentes!

Bons dias, mortos. Bons dias, Pai."

José Gomes Ferreira
(Elegia Fria com Lírio)
s Inventados)

sexta-feira, 30 de junho de 2017

A Fonte da Felicidade Reside Dentro de Nós

"O hábito de me recolher a mim mesmo acabou por me tornar imune aos males que me acossam, e quase me fez perder a memória deles. Desse modo, aprendi com base na minha própria experiência que a fonte da felicidade reside dentro de nós e que não está no poder dos homens fazer com que fique realmente desgostosa uma pessoa determinada a ser feliz. Por quatro ou cinco anos desfrutei regularmente de alegrias interiores que almas gentis e afectuosas encontram numa vida de contemplação."

Jean-Jacques Rousseau
(Devaneios de um Caminhante Solitário)

sábado, 7 de janeiro de 2017

Terra de Ninguém

"Todos têm para mim o desprezo dos fortes,
todos têm para mim
o desprezo
dos que encontram na vida um caminho
- que muitas vezes não encontraram
mas julgaram encontrar.

Caminho
que pode ser o seu
mas é um caminho...

Eu
continuarei a perder-me nos horizontes largos,
a andar às cegas entre o mal e o bem...

que a minha terra
é Terra de Ninguém."

João José Cochofel

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Dia de Natal

"Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas."

António Gedeão

Recomeça….

"Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…"

Miguel Torga

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Difícil fotografar o silêncio.

"Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.

Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski — seu criador.
Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal."

Manoel de Barros

Fraternidade

"Fraternidade
de débeis sentimentos inexactos,
cada qual com a sua verdade,
que só a imaginamos
para destruir
o sonho injusto dos factos.
Mas não me digam que vai continuar a desistência,
este eterno sempre da repetição da mesma coisa,
este terror medíocre de sentirmos debaixo dos pés
a impossível Ponte
que nunca poisa
nem poisará
em nenhum horizonte."

José Gomes Ferreira

Poesia

"Estou nu diante da água imóvel.
Deixei minha roupa no silêncio dos últimos ramos.

Isto era o destino:

chegar à margem e ter medo da quietude da água."

Antonio Gamoneda
"Livro do Frio"
Trad. José Bento

Despedida

"Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia."

Eugénio de Andrade
"Ostinato Rigore"

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Pórtico

"Outros serão
os poetas da força e da ousadia.
Para mim
— ficará a delicadeza dos instantes que fogem
a inutilidade das lágrimas que rolam
a alegria sem motivo duma manhã de sol
o encantamento das tardes mornas
a calma dos beijos longos.
(Um ócio grande. Morre tudo
dum morrer suave e brando...

Que os outros fiquem com o seu fel
as suas imprecações
o seu sarcasmo.
Para mim
será esta melancolia mansa
que me é dada pela certeza de saber
que a culpa é sempre minha
se as lágrimas correm ..."

João José Cochofel

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Poema do Homem Só

"Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém."

António Gedeão
(Teatro do Mundo)

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Estrela da Manhã

"Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.

Vai.

Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.

Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece o linho,
a espuma roxa dos vinhos,
incêncio na face jovem.

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressuma-lhe à flor da pele.

Vai, belo monstro.
Arranca
as florestas com os teus dentes.
Imprime na areia branca
teus voluntariosos pés incandescentes.

Vai

Segue o teu meridiano, esse,
o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
o plano de barro que nunca endurece,
onde a memória da espécie
grava os sonos imortais.

Vai

Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
Desdobra-te e beija
em ti mesmo a carne sã.

Vai

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
«tem que ser».

O mar que rola e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
«tem que ser».

Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
«Tem que ser»."

António Gedeão, 
"Movimento Perpétuo"

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Ao vento de Outono

"Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volta ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de um vez a casca
do fruto que não madura."

Joan Vinyoli

Termo

"Pára, imaginação!
Não há mais aventura, nem poesia.
A hora é de finados,
Com versos apagados
Na lareira onde a fogueira ardia.

Pára, é a lei.
Agora é só cansaço desiludido
E memória teimosa que entristece
O nada que acontece
E o muito acontecido.

Pára, porque findou
O tempo intemporal
Do amor e da graça concedida
A quem nele, no seu barro original,
Modela a própria vida."

Miguel Torga

Solidão

"Aproximo-me da noite 
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo"

Mia Couto 
"Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Cântico Negro

"“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
— Sei que não vou por aí!"

José Régio
(Poemas de Deus e do Diabo)

sábado, 13 de agosto de 2016

Testigo de Ceniza

"Na rocha batida pelo mar
ou na casca seca dessa árvore,
é o vento que uiva contra os vidros,
sobre a pegada da areia ou na terra mais dura,
no fumo que se te desfaz entre as mãos,
escreve, escreve, como se descobrisses ainda as palavras.
Escreve para peles ou pedras,
para brancos cavalos, para esses olhos
que nunca te olharam e que tu jamais olhaste.
Escreve sem orgulho, mas tão pouco com falsa modéstia,
que não foi em vão tua passagem pelo mundo.
Esquece a seguir tão estúpida frase
e olha para o mar, as velas desse barco
que vem resgatar-te, seu paciente cabecear sobre as ondas,
as luzes reflectidas na espuma.
E escreve – sobretudo – quando o vires afundar-se,
quando desaparecer como o sonho ou a bruma,
quando já não existir – pois é sabido que jamais existiu –
escreve e repete-o em voz alta para o surdo mar, para o céu distante.
Aprende assim, testemunha de cinza,
o final implacável de teu labor ilusório
e então, sem hesitar - que a mão não te trema –
escreve, escreve, escreve, escreve."

Juan Luis Panero