domingo, 8 de novembro de 2015

O Amor que Sinto

 "O amor que sinto 
é um labirinto. 

Nele me perdi 
com o coração 
cheio de ter fome 
do mundo e de ti 
(sabes o teu nome), 
sombra necessária 
de um Sol que não vejo, 
onde cabe o pária, 
a Revolução
 e a Reforma Agrária 
sonho do Alentejo. 
Só assim me pinto 
neste Amor que sinto. 

Amor que me fere, 
chame-se mulher, 
onda de veludo, 
pátria mal-amada, 
chame-se "amar nada" 
chame-se "amar tudo". 

E porque não minto 
sou um labirinto."

José Gomes Ferreira

sábado, 7 de novembro de 2015

Consolo na Praia

"Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho."

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Poema

"Cada dia nos dê o nosso pão
e comê-lo nos abra aquela casa
de inteligência e coração
onde sentar-se é mesa rasa

de ver quantos não estão
sentados nessa casa.
E comer se ilumina, e abre-se portão,
ou qualquer coisa de brasa

entra no movimento e na palavra,
como se cada gesto e cada som
fosse uma leitura que se abra

dentro da história de não haver senão
a de estarmos à mesa da palavra,
transparentes, à luz de se partir o pão."

Fernando Echeverría
"Obra Inacabada"

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Poesia

"Estou nu diante da água imóvel.
Deixei minha roupa no silêncio dos últimos ramos.

Isto era o destino:

chegar à margem e ter medo da quietude da água."

Antonio Gamoneda
"Livro do Frio"
Trad. José Bento

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Arca de Noé

"Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
e escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual."

Pedro Tamen

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A Rosa

"A rosa,
a imarscescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da mais ténue
cinza pela arte da alquimia,
a rosa de Ariosto ou a dos Persas,
a que está sempre só,
aquela que é sempre a rosa das rosas,
a jovem flor platónica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inatingível."

Jorge Luis Borges
"Lua Defronte"

domingo, 1 de novembro de 2015

Amor

"Amor, amor, amor, como não amam 
os que de amor o amor de amar não sabem, 
como não amam se de amor não pensam 
os que de amar o amor de amar não gozam. 
Amor, amor, nenhum amor, 
nenhum em vez do sempre amar que o gesto prende 
o olhar ao corpo que perpassa amante 
e não será de amor se outro não for 
que novamente passe como amor que é novo. 
Não se ama o que se tem nem se deseja 
o que não temos nesse amor que amamos, 
mas só amamos quando amamos o acto 
em que de amor o amor de amar se cumpre. 
Amor, amor, nem antes, nem depois, 
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras 
tudo 
o que no sexo é sexo só por si amado. 
Amor de amor de amar de amor tranquilamente 
o oleoso repetir das carnes que se roçam 
até ao instante em que paradas tremem 
de ansioso terminar o amor que recomeça. 
Amor, amor, amor, como não amam 
os que de amar o amor de amar o amor não amam."

Jorge de Sena 
"Peregrinatio ad loca infecta"