Tudo que temos seguro,
Ao ar das tuas Miragens
Se lhes desfez nas mãos frágeis.
Tudo o que pode ser tido,
Nem dado nem recebido
Lhes pôde ser
— Por o poder.
Quiseram, se é que é vontade
Quererem sem liberdade,
Nada do real perecível:
Só o impossível.
Vê bem, Deus louco!
Se os fazes tanto, ou tão pouco,
Não desfaças dos seus fins
Os próprios teus manequins.
Por sede de Fonte Magna
Se lhes estagna,
Já seca nunca bebida,
Toda a corrente da vida.
Por fome dum pão dum trigo
Só amassado contigo,
Não gostaram pães nenhuns
Senão jejuns.
Na aposta sempre frustrada
Do tudo ou nada,
Vê bem, Deus nu!
Que serão, se o nada és tu?
Vê bem, Deus mudo!
Jogaram tudo por tudo.
Se não existes, perderam:
Nem sequer foram quem eram.
Vê bem que somos o tudo
Que assim jogaram, Deus mudo!
Consigo nos apostaram
Se perderam, se ganharam...
Por amor, piedade ao menos,
Dos a quem dás teus acenos,
Quebra o que em ti nos resiste.
Paga-nos o que lhes deves: assume existência! Existe."
José Régio
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